18 de mai. de 2007

Cercados por tecnologia

Quem ainda resiste aos avanços tecnológicos corre sério risco de fazer parte das estatísticas quando se trata de exclusão. Para tratar deste assunto, entrevistei a especialista em Semiótica, Lucia Santaella. Dê uma olhada!

Signos da modernidade

Assim como foi um dia com o jornal, a televisão e o cinema, as mídias digitais interferem no modo de vida da sociedade, na cultura e nos costumes. As relações humanas estão em constante mutação, ainda mais em tempos de Internet e com todos os mecanismos que ela oferece, como as comunidades virtuais e os programas de comunicação instantânea.
A especialista em semiótica Lucia Santaella, 62, diz que a produção de novas linguagens é irreversível. Por conseqüência, quem não tiver acesso a esses meios acaba sendo excluído. Sem falar que o preconceito em relação às novas tecnologias ainda existe, pois há quem acredita que o desenvolvimento tecnológico é uma coisa separada do ser humano.
Natural de Catanduva, interior de SP, casada, mãe de dois filhos, Lucia mora em Perdizes e é professora titular da PUC-SP com doutoramento em Teoria Literária e Livre-Docência em Ciências da Comunicação na ECA/USP. Dirige o Centro de Investigação em Mídias Digitais (CIMID), na PUC-SP, e coordena o Centro de Estudos Peirceanos. Entre outras atribuições, é presidente honorária da Federação Latino-Americana de Semiótica e Vice-presidente da Associación Mundial de Semiótica Massmediática y Comunicación Global, México, desde 2004. Com 28 livros escritos e 200 artigos científicos publicados em periódicos no Brasil e no exterior, Lucia está trabalhando em seu próximo projeto: o livro ‘Linguagens líquidas na era da mobilidade’, previsto para ser lançado no segundo semestre deste ano.

De que maneira os signos, principalmente aqueles referentes ao mundo digital, interferem no dia-a-dia das pessoas atualmente?
A Semiótica é uma ciência que estuda todos os tipos possíveis de signos, que devemos tomar como sinônimo de linguagem. Todos os tipos de linguagens: visuais, sonoras, quadrinhos, pinturas, desenhos e todos os tipos de discursos verbais. Ou seja, a gente chama de signos as linguagens que são formas de representação do mundo. O que acontece é que, principalmente depois da Revolução Industrial, os signos estão crescendo. Os meios de produção de linguagem estão crescendo. Começa com o telégrafo, com a câmera fotográfica, depois a explosão do jornal, aí vem o cinema, rádio, televisão que são responsáveis por aquilo que a gente chama de cultura de massa. Mas, dos anos 80 pra cá, uma nova revolução começou a acontecer a partir do computador. No momento em que o computador se ligou ao modem, ao telefone, e os computadores se conectaram entre si, emergiu o que chamamos de cibercultura, uma cultura de ciberespaço, cujo estado da arte hoje é o Second Life. Ao invés de você se comunicar na Internet através de texto, você tem um mundo paralelo onde você cria uma figura que te representa. Até empresas estão comprando terrenos no Second Life para montar uma empresa virtual. Não sabemos o que vai acontecer daqui pra frente. O que a gente sabe é que o processo não vai ser interrompido, quer dizer, essas tecnologias vieram para ficar e se transformar. A tendência é evoluir. O que agora está sendo chamado de simbiose ser humano e máquina. Eu atrasei para esta entrevista porque eu estava dialogando com o meu computador (risos) que tinha um vírus. Transformou completamente a nossa vida, a maneira como vivemos, aprendemos, ensinamos e nos entretemos, as formas de entretenimento se modificaram. Crianças de dois anos estão começando a manusear esses equipamentos. Tem até mais destreza do que uma pessoa mais velha.

Isso acaba se refletindo na relação entre pais e filhos, por exemplo?
Interferem em tudo. Os meios de comunicação de massa modificaram completamente as nossas relações. Não vivemos mais apenas relações face a face. Inclusive, essas relações também são mediadas. Dois irmãos podem ver televisão, juntos, e até trocarem idéias a respeito do que vêem, mas a relação deles, hoje, tem esse outro elemento que traz mensagens para dentro de casa.

Até que ponto a tecnologia é benéfica e a partir de que momento começa a ser ruim para as relações humanas?
Essa pergunta é típica. Não dá para a gente medir se é bom ou se é ruim. Faz parte da evolução humana. E o ser humano é muito complexo. A fala nos torna muito complexo. Se as linguagens estão crescendo, e aquilo que nos constitui é a linguagem, isso significa que a nossa complexidade também está crescendo. É muito difícil dizer se é bom ou ruim porque o ser humano é paradoxal. O bem e o mal convivem em nós de uma maneira bastante difícil. Não adianta achar que o ser humano é bonzinho. Temos essa força contraditória dentro de nós. E em ambientes de complexidade muito alta, essas forças contraditórias ficam mais indomáveis. É o preço que o ser humano paga. Agora, eu acho que é a inteligência humana que está crescendo. O que não significa que ela está sendo sempre usada para o bem do ser humano. O que a gente enfrenta é esse crescimento de complexidade. E não é determinismo. As pessoas falam em crescimento, em evolução, e logo pensam em determinismo. Nada está pré-determinado. Por isso que eu digo que não podemos prever de maneira nenhuma quais serão os desenvolvimentos do mundo e as conseqüências que isso trará para o ser humano. Mas de uma coisa podemos estar certos: essas tecnologias não vão desaparecer, como a escrita não desapareceu, a fotografia, embora ela seja hoje transformada no computador, ela ainda existe como uma linguagem e o ser humano se apega muito às linguagens que ele cria porque elas nos constituem.

A tecnologia exclui?
Sim, é uma forma de exclusão. Qualquer conquista, ou qualquer aquisição que venha enriquecer, que venha tornar mais complexas as relações humanas e o próprio ser humano, se ela não é uma aquisição acessível a todos, aquele que não tem acesso são decididamente excluídos. É aí que vemos as enormes contradições que hoje existem no desenho do planeta. Há países que estão 100% conectados. Há países na Europa com 100% de conexão. O telefone celular, hoje, na Itália e na Finlândia, é quase 100% das pessoas que têm e que se comunicam por meio dele na sua plena potencialidade. Não adianta a gente falar ‘ah, no Brasil tantos têm celular’. Mas qual é a potencialidade do celular que é explorada? Você vê as pessoas mais simples, elas têm celular mas elas simplesmente usam para receber chamadas. E a tendência é que o celular se transforme em uma coisinha parecida com um ser vivo, ele vai fazer de tudo. Mas para isso é preciso ter habilidades desenvolvidas e a primeira delas é a habilidade da alfabetização.

E a alfabetização no Brasil deixa a desejar...
No Brasil é um problema endêmico. O Darcy Ribeiro dizia, nos anos 60, em um artigo que ele escreveu chamado ‘Sobre o óbvio’(VER LINK), que no ano 2000 o Brasil seria visitado por sua excentricidade, não a excentricidade das florestas e da natureza, mas porque aqui ainda existiria uma coisa rara que é o analfabeto. E o analfabetismo cresce, ao invés de diminuir. E hoje é mais complexo ainda. Quando se fala em inclusão digital achando que a inclusão digital é colocar um computador na mão de cada pessoa, de cada criança, isso é uma bobagem. Não resolve porque o computador exige uma alfabetização ainda mais complexa do que a alfabetização letrada que eu chamo de alfabetização semiótica. Ele tem que ser capaz de fazer conexões, de ler signos diferentes da linguagem verbal, e ao mesmo tempo ele tem que estar alfabetizado. Isso é uma mutilação. São habilidades mentais que não estão sendo desenvolvidas.

Ou seja, não basta ser treinado para usar a máquina...
Não adianta treinar a apertar botões. O computador não funciona se não houver uma interface, uma interação. Essa é a característica da cultura digital. Ela é, por natureza, interativa, ou então ela exige que a pessoa esteja, tenha o equipamento mental para fazer essa interface com o computador. É a mesma coisa que estar diante de você e não saber falar. A interface não se estabelece.

E o preconceito como fica em uma era repleta de informações?
Boa pergunta, porque desde que a linguagem alfabética foi implantada no Mundo Grego, toda novidade tecnológica é recebida com resistência pela sociedade. A invenção de Guttemberg, a prensa manual, permitiu que os livros fossem publicados em série ao invés de ser um objeto único, mas as classes ricas continuaram pagando os escribas durante cerca de 50 anos. Porque aquilo parecia de uma vulgaridade atroz. E se lermos a história social do cinema, quando o cinema apareceu, aconteceu a mesma coisa. O cinema imbecilizava as massas. E tem gente que diz que o computador desumaniza o homem. É essa visão que eu tenho muito rebatido de que as pessoas vêem o desenvolvimento tecnológico como uma coisa separada do ser humano. Como se ambos corressem em paralelo. Mas não. Todo desenvolvimento tecnológico se incorpora a vida humana, a própria natureza humana. Preconceito tem porque toda invenção tecnológica exige um processo de adaptação, inclusive a função dos meios anteriores é remanejada. Quando apareceu o jornal, evidentemente a função do livro foi remanejada. E nenhum meio desaparece. Só quando ele é substituído por uma, por exemplo, o fax, hoje, é muito menos usado. O telégrafo também. Eles foram substituídos por um dispositivo mais incrementado. Eles só desaparecem quando a função deles é inteiramente substituída. Caso contrário o que temos é um caleidoscópio muito rico porque o que nos diferencia dos animais, os animais também têm formas de simbolização, eles têm um certo desenvolvimento de inteligência. O que nos diferencia é o fato de nós falarmos. Todos esses meios que vão aparecendo vão expandindo e incrementando cada vez mais essa capacidade humana de se comunicar.

A senhora diz que não tem como prever o futuro da comunicação e qual será o grau de evolução do mundo digital. Como analisa isso?
Eu estou convicta de que essa simbiose do ser humano com as máquinas vai se tornar cada vez mais íntima. Até um ponto, hoje já está se falando em computação onipresente. E não vai demorar muito, uma década, no máximo, para que os chips se tornem tão baratos que vão existir dezenas de computadores para cada pessoa, só que invisíveis. As paredes, os ambientes, os carros serão inteligentes. Isso já existe. Tem carro que o motorista guia, mas quem orienta o carro é um sistema de GPS, um computador. Esses computadores invisíveis já estão acontecendo. Todo ambiente nosso será interfaceado. Todas essas previsões que estou fazendo é em função de que áreas que os países mais avançados estão investindo. País que não cria tecnologia, know how tecnológico, tem que importar. É o problema brasileiro. Quando a gente pensa, por exemplo, numa universidade alemã, agora, que recebeu de uma empresa privada um investimento de 200 milhões de Euros e esta universidade tem um centro de nano tecnologia, os grandes centros do mundo estão investindo em nano, biotecnologia. O nosso corpo vai ser habitado por chips. Nano quer dizer do tamanho de moléculas. A previsão é que com isso é possível curar doenças, deficiências, atrofias, etc.

Mas é uma realidade ainda muito distante da nossa, aqui no Brasil?
Não. O Brasil é um país desigual e paradoxal. Falamos que é um país pobre. Imagina, não é pobre. A classe rica é extraordinariamente rica e extraordinariamente ostensiva. O que temos aqui é um desequilíbrio abissal. Não é que o Brasil está longe, porque as empresas multinacionais que estão no Brasil já estão recebendo o retorno destes grandes investimentos. Aquilo que se transforma em uma aquisição para o ser humano, se transforma em uma necessidade da espécie. Nos países mais contraditórios, evidentemente, essas desigualdades vão ficando cada vez mais profundas. Um abismo. Temos regiões nesse país anteriores à era feudal. É um verdadeiro palimpsesto cultural e social. São camadas e camadas que convivem, isso fica muito interessante para as pessoas nos visitarem, não é? Os estrangeiros que adoram exotismo têm aqui uma floresta densa.

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